terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Memorizar as mudanças do acordo

A partir de 1.º de janeiro de 2016, usar as mudanças decorrentes do Acordo Ortográfico passa a ser obrigatório no mundo lusófono.

Houve mudanças na acentuação e no emprego do hífen para que houvesse uma uniformidade ortográfica entre os países que usam o português como idioma oficial.  

memorizar as mudanças. Sempre que houver dúvidas, fazer uma consulta ao acordo. Há muitas publicações a respeito, principalmente na internet. A memorização se faz com mais facilidade pelo uso.

As dificuldades de memorização incidem nas pessoas de faixa etária mais avançada, que não  sabiam bem quais  eram as regras anteriores, portanto, para aprender as mudanças precisam estudar tudo novamente. 

Essas pessoas, se não forem profissionais que precisam do uso correto da escrita, podem ter o luxo de ignorar as mudanças.  Elas não atingiram  5% das palavras, portanto, não vão dificultar a leitura.
No Brasil, a adesão já foi total. Quem resistiu mais foram os portugueses porque a mudança foi mais abrangente. O acordo ortográfico entre os brasileiros não é mais novidade, é procedimento consolidado.


A mudança foi apenas para atender ao mercado editorial, para que livros e jornais tivessem uma edição só no mundo lusófono. Para, nos anais de eventos internacionais, pôr suas conclusões no português do Brasil e no português de Portugal. Para ser como no espanhol e no inglês, na escrita, um idioma só.  Não foi uma reforma, houve mudanças decorrentes de um acordo entre os países lusófonos.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Tantã, tantan ou tan-tan


A palavra tantã tem um significado que é reconhecido por todos os dicionários: amalucado, louco, tonto, desequilibrado.

Apenas o Michaelis registra o segundo sentido: gongo. Tantã tem origem onomatopaica, ou seja, o segundo nome dado ao instrumento musical imita o som emitido por ele. Não há outra forma de escrever palavra, apenas “tantã”.

Caratê e balé



Hélio Consolaro*

Há entre nós uma tendência a imitar tudo que é estrangeiro, tudo lá fora é melhor do que aqui, aquele complexo chamado de “vira-lata”, de inferioridade.

Ballet lá na França; karaté, no Japão. Aqui no Brasil: balé e caraté. Mas as academias das duas modalidades, para fazer marketing, como se abrasileirar-se fosse uma atitude de somenos, inserem o estrangeirismo em seus nomes.
  
Importar palavras é resultado de interação entre os povos, salutar, mas não podemos exagerar. Caso já exista uma palavra que traduza a estrangeira, não faz sentido importar uma outra.


Como aconteceu com “deletar”, da tecla do computador em  inglês “delete”, pois temos “delir” em português. Nesse caso, houve uma coincidência, tanto o inglês como o português importaram a palavra do latim: delere. Conjugar o verbo “delir” é complicado, defectivo, terceira conjugação.
Já deletar é primeira conjugação, regular, bem mais fácil. Nesse caso, a importação foi mais inteligente, pois “delete” se encaixa em nosso sistema ortográfico. 

Brasileiros que ficam com os olhos voltados para a Europa e Estados Unidos importam mais e querem inserir a palavra em nosso vocabulário na forma estrangeira, sem adaptação ao sistema ortográfico português. Com a nova ordem econômica, como vamos nos comportar com o mandarim.

Palavras não adaptadas à ortografia portuguesa: show, marketing, link. Palavras adaptadas: uísque, linque, xou, balé, caratê.

Palavras de origem latina ou grega não são estrangeirismos porque os dois idiomas fazem parte da formação do idioma português. Assim como as de origem indígena e africana porque eram línguas de povos que se inseriram na cultura brasileira. Apesar disso, se adaptaram ao sistema ortográfico português. O índio já estava aqui, o negro foi trazido à força, como escravo.

Estudar a etimologia das palavras, a história de cada uma é apaixonante. E o melhor dicionário para isso é o Houaiss.

*Hélio Consolaro é professor de Português e escritor.


domingo, 19 de outubro de 2014

Como compor siglas


A sigla é um tipo de abreviatura. Também trataremos como siglas os acrônimos (palavras formadas por sílabas ou partes das iniciais do nome de um órgão ou entidade). Festara, por exemplo, é um acrônimo: FEST – festival; ARA, Araçatuba. A letra “T” tem função dupla, compõe FEST e significa também teatro: Festival de Teatro de Araçatuba.

Ela tem o gênero da primeira palavra que a compõe. Samar, por exemplo, é a Samar porque se trata de uma empresa, gênero feminino. Quando era Daea, era o Daea, porque se tratava de um departamento.
   
Festara ou FESTARA?
As duas formas estão corretas porque as siglas longas podem ser escritas apenas com a letra inicial maiúscula: Ceagesp, Ceasa, Dersa, Samar. Nem todos concordam com isso.

O Manual de Redação do Estadão, por exemplo, dá outra orientação a seus jornalistas: escreva toda a sigla em maiúsculas quando ela tiver até três letras: USP, ONU, PT. As siglas e acrônimos  com quatro letras ou mais apenas inicial maiúscula: Masp, Maap, Festara, Edara.

As siglas, ainda conforme o Estadão, com mais de quatro sílabas são escritas em maiúsculas quando são soletradas letra por letra: CPFL, PSDB, PMDB.

Quando devo usar ponto em sigla?  
Se a sigla formar sílabas, como se fosse uma palavra, não se usa o ponto: Ceasa, Fuvest, Daea. Do contrário, o ponto é usado, como: C.E.E. (Conselho Estadual de Educação), D.S.T. (doenças sexualmente transmissíveis), E.E. (escola estadual). Também o uso do ponto não é uso do corrente, trata-se de uma regra que está sendo abandonada pelo usuário da língua escrita. 

Aids ou aids? 
Como Aids é uma sigla, a inicial deve ser maiúscula. O Brasil adotou a sigla inglesa, em português ou espanhol seria Sida (adotada pela Argentina). A interferência de Nossa Senhora Aparecida ocorreu no caso... A Cida querida, a santa, porquie não ia ficar bem dizer que o fulano morreu de Sida. 


terça-feira, 13 de maio de 2014

A musicista, o musicista

Hélio Consolaro

A palavra “música” tem dois sentidos que confundem até os músicos: 1) a arte de combinar harmoniosa e expressivamente sons; 2) feminino de músico, mulher que exerce atividades ligadas à música.

A confusão em chamar “musicista” de feminino de músico está na omissão de gramáticas e dicionários que nada falam a respeito, demonstrando certo medo, desconhecimento.

Se num texto, o redator chamar a mulher artista de “a musicista”, precisará, por coerência, chamar o homem de “o musicista”, porque o feminino de “o musicista” é “a musicista”. Pelo contrário, chamar o homem de “músico”, então, por coerência, a mulher deve ser chamada de “música”, porque o feminino de “músico” é “música”.
  
Raras as vezes o feminino "a música" (a artista) pode se confundir com o substantivo feminino "música" (a arte). Como em: “A música Maria Betânia tem muitos admiradores”. Quem é admirada, a composição ou a artista? A composição de Capiba, sucesso na voz de Nélson Gonçalves? Então pode deixar do jeito que está. Se for a artista, não precisa mudar a frase: Maria Betânia é uma grande intérprete.


Não havendo ambiguidade, use o feminino "a música" sem medo: O grupo é formado por três músicos e duas músicas.  

*Hélio Consolaro é professor de Português, jornalista e escritor.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Bartô


Por Marcílio Godoi -Revista Língua Portuguesa - Editora Segmento - novembro de 2013

"A primeira letra de minha intimidade foi o y da galinha. Nunca me conformei em escrever galinha sem y. Do x da questão vim a saber mais tarde, nos suspensórios da calça. Sem medo de ter medo, mas apaixonado por coração, eu vistoriava o fundo da panela com molho e comia, por último, o coração do frango. Coração deixa menino medroso, dizia meu pai."
(Trecho de Ler, escrever e fazer conta de cabeça, de Bartolomeu Campos de Queiroz)
Papagaios, Minas Gerais, na década de 1940, tinha a famosa vida besta do poema "Cidadezinha qualquer", de Drummond, em que todos vão devagar, até o olhar das janelas. Numa delas, surgiram dois olhos assustados de um menino que não se sentia propriamente convidado pela vida, dois olhinhos espantados com a grandeza deste mundo.

Pois bem, esse olhar cresceu e virou um olhar atento, maduro, olhar de educador, de humanista. Mas, aos poucos, esses olhos também foram servindo como uma espécie de câmera em que um narrador-menino nos convida a percorrer com ele os corredores e as estradinhas de suas memórias mais sutis.

Foi assim que Bartolomeu Campos de Queiroz (1944-2012), Bartô para os íntimos, foi tecendo, livro a livro, uma obra de carga afetiva e poética que lhe rendeu prêmios. Sua literatura, dita infantojuvenil, mas que toca a todos, é repleta de imagens como um quadrado de sol desenhado pela janela no chão já bordado pela sombra da sianinha do telhado. Vem de um barulho da palha do colchão, da caixa de desmazelos sobre a mesa. É inesgotável em seu jogo-escrita genial: achar maravilhas no que há de mais simples.

Uma palavra, alguma polêmica


 “Não há, sobretudo, esse amor à tarefa bem-feita, que se pode manifestar até mesmo num anúncio de besta sumida.”
      Carlos Drummond de Andrade

No texto original do qual colhemos a epígrafe, registra-se a grafia ‘bem-feita’, segundo os padrões anteriores ao Acordo Ortográfico de 1990.

Há algum tempo, revendo esse texto para um exame, adaptei a palavra às novas regras e cravei ‘benfeito’ não sem antes, juntamente com um amigo inconformado com a nova roupagem da palavra, consultar o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP),   da Academia Brasileira de Letras, em sua quinta edição, vinda a público em 2009. ‘Benfeito’, substantivo ou adjetivo, é  o que lá se registra, contrariando a forma ‘bem-feito’, tão comum aos nossos antigos olhos. Não resisto, neste momento,  visitar o site da Academia Brasileira de Letras, que disponibiliza o VOLP. Curiosamente, lá aparece ‘benfeito’, apenas como substantivo.


Recebo agora, de presente, quatro ótimos dicionários, atualizados pelo novo Acordo, um agrado do Ministério da Educação aos professores públicos brasileiros. Aqui, a nossa gratidão! Tenho, nas horas de folga, consultado as obras e aprendido muito com Bechara, Houaiss, Francisco Borba e Caldas Aulete, que emprestam suas marcas de notória contribuição à lexicografia brasileira.

Dicionários ao lado, não custava um pulinho ao ‘benfeito’ (seria ‘bem-feito’?) para ver se a relutância do amigo tinha amparo em algum dicionarista recalcitrante.

Comecemos pelo Aulete. Que susto! O dicionário não registra ‘benfeito’. Lá aparece ‘bem-feito’, para o “que foi feito com capricho, apuro (trabalho bem-feito)”. O dicionário faz ainda remissiva à forma “bem feito”, encontrável no verbete “feito”. Vamos lá?  Ensina o dicionário que 'bem feito' é  a maneira “com que se expressa ironicamente (e com uma ponta de maldade) que uma consequência ruim de uma ação errada foi merecida. Você se deu mal na prova? Bem feito, quem mandou colar?”.
Visitando o Francisco Borba, lemos que ‘benfeito’ é adjetivo como em “Ele prezava o verso benfeito” e, ainda, interjeição, para a qual o dicionário registra o seguinte exemplo: “Na hora do lance, o jogador escorregou e caiu. Benfeito!”.

Hora do Houaiss Conciso. Lá se lê apenas que ‘bem-feito’ é adjetivo. Intrigado, volto ao Borba e leio no final do verbete: “Para a tradição lexicográfica é bem-feito”.

Por fim, o Bechara, cujo verbete reproduzo quase integralmente: “bem-feito (...) adj. 1. Bem-acabado. 2. Bem-proporcionado; elegante. [OBS.: Escreve-se benfeito (aglutinado sem hífen, como subst. no sentido de ‘benfeitoria’)  e bem feito (separado como interj.)]”.

Mestre Aurélio não estava no pacote de presentes. Fui ouvi-lo, na sua versão digital,  e lá se registra a forma benfeito (adj.), com a indicação de que é  grafia recomendada pelo Acordo.

As citações, obviamente, falam por si. As discordâncias são evidentes. Que belo entrave à uniformidade gráfica pretendida pelo Acordo!

Para nós, se permitido é opinar, tudo ficaria benfeito se, nas situações aqui descritas, usássemos ‘benfeito’, como, aliás, se deduz do dicionário de Borba.  Tão simples!... Bastaria seguir os termos do Acordo, no qual, na base XV, 4º item,  a palavra aparece, sem discriminação de classe gramatical ou contexto: “Em muitos compostos, o advérbio bem aparece aglutinado com o segundo elemento, quer este tenha ou não vida à parte: benfazejo, benfeito, benfeitor, benquerença, etc.”. Benfeito, não?
           
*Walter Rossignoli é autor de “Manual de ortografia: teoria e prática”, pela Editora Ciência Moderna.