quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Cuidado com a leitura rápida, você poderá se complicar

Jornal O LIBERAL, 7/2/2016

Hélio Consolaro*

Num dos jornais de minha cidade, Araçatuba, reproduziram um artigo. Eu apenas li "Independentes / sem rodeios". Fiquei preocupado com Barretos-SP, pois o "Os Independentes" é o grupo gestor da Festa do Peão, onde há rodeios. Pensei: acabaram com a tradicional festa. 

Não tenho afinidade com rodeios, mas como ele faz parte da cultura caipira, da tradição boiadeira, me preocupou. Isso me levou à leitura do artigo. E não era nada disso, tratava-se de candidaturas independentes, sem partidos. E o autor falava do assunto sem rodeios.

Até um antigo professor de Português erra, por isso criou falsas expectativas. Então, tomemos cuidado com a leitura rápida. Dessa vez não houve consequências funestas comigo, mas...

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Estudos gramaticais: entre a tradição e a inovação

87 páginas, R$ 29,90
www.editoracrv.com.br/produtos/detalhes/30849-problemas-de-morfologia-portuguesa

Ricardo Madureira Rodrigues *

Numa época em que tanto se discute acerca da polêmica reforma ortográfica, entendemos que questão muito mais profunda e urgente seria uma "reforma gramatical (se é assim que se poderia chamá-la), considerando as inconsistências já apontadas na gramática tradicional e na Nomenclatura Gramatical Brasileira. Não se trata, é claro, de se "implodirem" as bases da gramática tradicional e de se propor sua radical exclusão do ensino, sem oferecer melhor sucedâneo, mas de se incorporarem àquilo que ela traz de válido as inegáveis contribuições da linguística moderna à nossa compreensão diacrônica e sincrónica do sistema linguístico.

No entanto, tal discussão, embora já bastante enriquecida, não parece conseguir transpor os limites da academia e se incorporar ao mundo prático, por exemplo, nos níveis de ensino fundamental e médio, uma vez que mudanças dessa natureza precisariam contar ainda com o reconhecimento oficial, através de decretos legais, a exemplo da supracitada reforma ortográfica.

Nesta obra, “Problemas de morfologia portuguesa” o professor Walter Rossignoli nos presenteia com algumas apreciações críticas acerca de temas bastante áridos, deficientes nas nossas gramáticas inativas (e também didáticas), tais como a estrutura e formação das palavras, tão carente de urna abordagem sincrônica, e a complexa inter-relação entre os critérios morfológico, sintático, semântico e pragmático-discursivo com sua pertinência na descrição das classes de palavras.

Tais apreciações, o professor Rossignoli as faz com respeito ao legado da gramática tradicional, sem as veleidades, tão em voga, de desaboná-la, mas sim com o desiderato de apontar-lhe possíveis caminhos para uma necessária revisão. Parece-nos que o meu colega compartilha daquela reflexão de Isaac Newton, na qual o grande físico reconhece a contribuição daqueles que o antecederam: "Se consegui ver mais longe é porque estive sobre os ombros de gigantes". Gigantes tais como Dionísio, Varrão, Saussure, Mattoso Câmara, entre outros. Além de contribuir no nível teórico, espera-se ainda que contribuições como as desta obra propiciem, no futuro, auxílio no sentido de ajudar a esclarecer o infindável debate sobre a relação entre gramática e ensino, que tem sido tratado, a nosso ver, com certo vanguardismo e preocupante dogmatismo, como bem o apontou o eminente linguista Kanavillil Rajagopalan.

Sinto-me profundamente honrado em apresentar esta obra do meu colega de magistério e amigo a todos aqueles que estudam, lecionam ou simplesmente, como nós, amam a língua portuguesa.


(*) Licenciado em Letras pela Universidade Federal de Viçosa, MG; professor de Língua Portuguesa no Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais, Campus Barbacena.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O ensino do português nas universidades

Hélio Consolaro*

A revista Ensino Superior publicou uma reportagem, de Leandro Rodrigues, muito interessante, intitulada “Meu rico (e maltratado) português”, que mereceu manchete, sobre a situação do ensino do português no Brasil. O subtítulo “Os estudantes só descobrem a necessidade de reaprender a língua na universidade, sob a pressão das circunstâncias” demonstra que ela vai se ater a estudantes universitários.
Uma pesquisa feita pelo Instituto Paulo Montenegro e pela Ação Indicativa compôs o 3.º Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf). Os números assustam. Apenas 25% da população brasileira, entre 15 e 64 anos, demonstram domínio pleno da compreensão de textos. Para 67%, a conquista da leitura se limita à localização de informações simples em enunciados de uma só frase, ou à capacidade para identificá-las em textos curtos. Enquanto 8% não conseguem sair do ponto de partida, ou seja, são mesmos analfabetos. 
Os 67%, portadores do alfabetismo funcional, colocam uma questão muito séria do processo educacional: alfabetizar não basta, a escola precisa leiturizar o educando, fazer que ele também escreva textos. Como afirma Fábio Montenegro, secretário executivo do instituto: “A alfabetização básica não dá o mínimo necessário para a pessoa continuar se desenvolvendo. {...} Queremos chamar a atenção para a importância de a população dominar a leitura e a escrita”.
Essa realidade reflete no ensino superior, e a revista mostra isso. Também revela ações afirmativas, como o trabalho da Oficina de Produção Textual, da Universidade Cidade de São Paulo, que faz um trabalho com os estudantes dos cursos de graduação e até com os já formados.
A professora Edna Guerra Paes Manso, coordenadora da oficina, afirma que os professores de Língua Portuguesa, antes e durante a universidade, precisam mudar sua postura. Em vez de concentrar apenas no ensino da gramática, deve partir para a compreensão de texto, pondo a gramática como auxiliar. E ensinar o aluno a elaborar seu próprio texto.
O Centro Universitário de Maringá (Cesumar) mantém curso obrigatório de nivelamento de português, com duração de 20 a 40 horas, para todos os recém-ingressos em seus cursos. Já a Universidade de Brasília (UnB) mantém um serviço de tira-dúvidas por telefone, disponível a seus alunos.
Com a reprodução da crônica de Machado de Assis, “Sr. Algarismo”, a revista mostrou que o problema é velho, pois durante o Império, houve uma pesquisa e se descobriu que 70% da população era analfabeta. Ironiza Machado que políticos falavam apenas para 30% da população, e que a chamada opinião pública se restringe a isso. Parece que a realidade mudou pouco, levando em consideração os 67% de pessoas que lêem apenas mensagens curtas.
Passando isso para os dias de hoje, quer o alfabetismo funcional compromete a cidadania brasileira, por isso se diz que se faz uma verdadeira revolução quando transformamos o aluno num leitor.   
A Revista Ensino Superior é editada em papel e distribuída nas universidades e está disponível em edição on line no seguinte endereço: www.revistaensinosuperior.com.br  (12/11/2003)


*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras

domingo, 2 de julho de 2017

Festa junina, julina ou julhina

Hélio Consolaro*

Virou moda em nosso meio as festas juninas avançarem o calendário, invadindo o mês de julho. Uma entidade, em Araçatuba, fez isso, chamando-a de “festa julhina”. Os dicionários não registram tal adjetivo.

Na internet, há professores dando suas opiniões totalmente diferentes. Vejamos algumas:
OPINIÃO 1: se são juninas as festas de junho, não são caracterizadas como junhinhas, por que julhina. Se o H desaparece em JUNINA, o mesmo ocorre em JULINA. Essa é a opinião mais lógica.
OPINIÃO 2: essa opinião apresenta razões etimológicas. O mês de junho tem origem no latim: junius; e o mês de julho em Julius. Facilmente se depreende o motivo da eliminação do H em junina e julina. Explicação mais “científica”. 
OPINIÃO 3: se as festas em julho continuam homenageando os santos Antônio, João e Pedro, elas continuam sendo juninas, não devem ser chamadas julinas. O problema dessa opinião é que JUNINA não tem nada a ver com os santos, mas com o mês. Explicação incoerente.
OPINIÃO 4:  festas julianas (em julho). Há razão etimológica, mas por paralelismo as de junho deviam se chamar junianas. Explicação sem lógica.

O uso de “julhina” não encontra consistência alguma, portanto, errôneo.

*Hélio Consolaro é professor de Português, jornalista e escritor.